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Tuesday, May 19, 2009

A Traição do Direito

Conceder o grau honorário a quem não o merece é injusto. E a coisa ganha contornos graves se se trata de Direito.

Ser Honoris Causa em Direito significa que se agiu em prol da justiça, e a justiça não é uma palavra vã, não é uma convenção. Ela é real e objectiva, e "a primeira maneira de a servir é defender a sua existência, é colocá-la acima do indivíduo e do Estado, da Liberdade e da Autoridade, como princípio superior da organização social"(Manuel Cavaleiro Ferreira).
Se nos esquecemos do que é a justiça, então esquecemos-nos do que é o Direito, porque sem ela não há Direito.

E isto não é teórico. Se a Justiça só existe quando se dá a cada um o que é seu, então, dela faz parte o exercício livre por parte de cada um do seu direito, que não pode ser obstado por pessoa alguma, nem pelo Estado, nem pela sociedade.
E quando falamos de aborto, o problema é muito simples: a justiça obriga ao respeito pela vida e pelo direito à vida de todos os seres humanos.

Mais: o Direito não é valorativamente neutro. Ele é, como dizia Ozanam, "obra das nossas necessidades morais: tem as suas origens no fundo dos mais secretos recessos do coração". Gomes da Silva lembrou que o Direito nasce do Homem e para o Homem, "como elemento intrinsecamente constitutivo da essência humana", que se funda na pessoa humana concreta, como ser individual racional e livre, e à qual não pode negar a personalidade, ou seja, a qualidade de ser pessoa, e a dignidade que lhe é inerente, e cabendo-lhe ainda o papel de ser meio acessório para garantir a realização do Homem, tendo por isso um conteúdo ético. E no mesmo sentido Larenz e os modernos autores consagraram o Personalismo Ético como fundamento de todo o Direito, porque cada pessoa é portadora de uma dignidade originária e inerente desde a concepção, que não pode ser alienada, extinta ou reduzida. Porque Direito não faz nascer as pessoas e não pode evitar que morram, também as não pode matar.



Mas há um problema de deturpação ou de esquecimento. Há um erro; há uma falsa percepção da realidade, mais causado do que instantâneo e inocente. E enquanto este erro se mantiver, enquanto o problema do aborto não for observado tal qual é, não como conflito de direitos que não é, não como direito de propriedade que não é, mas como o direito à vida de todos, inclusive dos não nascidos, que requerem maior protecção pela sua fragilidade, então a sociedade dar-se-á tristemente ao luxo de ser injusta, eugénica e criminosa. E por isso, o que a Faculdade de Direito da Universidade de Notre Dame faz atribuindo Graus Honoris Causas mais políticos que merecidos, é premiar criminosos. E isso é um erro. Aliás, é um incentivo ao crime. E é absolutamente contrário ao Direito.

Obama é um produto da cultura moderna, um politico populista e teatral, que usa palavras belas que enchem auditórios e avenidas, congregam multidões, ouvintes cegos que não se importam que aquelas sejam completamente vazias. É tudo show of. É tudo fogo de vista. Mas ninguém quer saber. Tudo grita "Vamos, vamos todos juntos, isso mesmo, «Yes, We Can; Yes, We Can; Yes, We can»". É no fundo um deus moderno, pagão, vitima de adoração.
E agora, quem se opõe é preso, pois professa contra essa "nova religião". Como se fosse um crime ser-se contra.

As suas medidas são irreflectidas e populistas. Não têm qualquer conteúdo ético. São rodeadas de ornamentos que são as suas poéticas palavras vazias, ou as anedotas sobre Bush, mais o retrato da família feliz, etc. É tudo populismo, falsidade, vazio. Mas o povo gosta. E enquanto se dá o "pão para o povo", vai-se tornando a "humanidade humanicida" (J.P. Viladrich), e vai-se traindo ao poucos, a nossa frágil e bela Justiça, e tornando o que é Direito, em "torto"(M. Gomes da Silva).

PS: Já viram este vídeo?

Sunday, April 19, 2009

DOUTRINA SOCIAL DE OZANAM



Dada a actualidade, que considero profética, do pensamento social de António Frederico Ozanam, não resisto em transcrever várias das suas opiniões e escritos, bem como de alguns dos seus admiradores, que nos transportam do ano de 1836 ao mundo socialmente agitado que estamos a viver na transição de 2008 para 2009.

Assim, a 13 de Novembro de 1836, Ozanam escreveu ao seu amigo Janmot: "A questão que divide os homens dos nosso dias, já não é uma questão de forma política, mas uma questão social; trata-se de saber quem levará a melhor: o espírito de egoísmo ou o espírito de sacrifício; se a sociedade será uma grande exploração em proveito dos mais fortes ou uma consagração de cada um para o bem de todos e, sobretudo, para a protecção dos fracos. Há muitos homens que têm demais e querem sempre mais, e há ainda muitos mais que não têm o suficiente, que nada têm e que querem agarrar se não lhes derem. Entre estas duas classes de homens prepara-se uma luta que ameaça tornar-se terrível: dum lado o poder do ouro, do outro o poder do desespero".

Na sua linha de pensamento de 1836, escrevia a 6 de Março de 1848: "Por detrás da revolução política há uma revolução social. Por detrás da questão da República, que interessa aos letrados, há problemas que interessam ao povo e para eles se armou os problemas da organização do trabalho, do descanso, do salário. Não pensemos que poderemos fugir a estes problemas" (carta escrita ao irmão Pé. Ozanam).

Ozanam não tinha, de maneira nenhuma, a pretensão de propor uma solução técnica para o problema, de cuja gravidade tinha, aliás, falado e sentido. De algum modo abria a porta a investigações que não eram da sua competência.

O Papa Leão XIII, 50 anos mais tarde, devia precisar, completar e actualizar este problema das relações entre operário e patrão, através da Encíclica "Rerum Novarum".

Segundo a palavra de Alberto Mun, Ozanam foi mais que um pioneiro: "Deu o sinal para a acção popular cristã...".

Ozanam considerava a Justiça inseparável da Caridade: "a ordem da sociedade assenta em duas virtudes: justiça e caridade. Mas a justiça já supõe muito amor; pois é preciso amar muito o homem para respeitar o seu direito que liberta o nosso direito e a sua liberdade que estorva a nossa liberdade".

Segundo a opinião do Padre Gillet, "ninguém mais que Ozanam, por meio das Conferências, contribuiu no tempo e no espaço para restaurar a Doutrina Social da Igreja, tornando-a mais viva do que nunca e demonstrando aos homens que corações cheios de caridade são capazes de estabelecerem neste mundo o reino da justiça, provocando em cada nação a eclosão de obras sociais e preparando acordos internacionais".

Opinando sobre Frederico Ozanam, o Prof. Luís de Pina disse que ele "versou de tal modo o problema do trabalho regenerado pelo cristianismo; a questão proletária e capitalista; o contrato de trabalho e da sociedade; o acordo e luta de classes, o salário familiar, associações operárias e seu valor, a exploração do trabalhador, a intervenção moderadora do Estado e outros pontos de grande questão social; referindo Monsenhor Gillet, Bispo dominicano que afirmou que Ozanam foi um genial percursor das Encíclicas Sociais de Leão XIII (Rerum Novarum) e de Pio XI (Quadragésimum Anno).

Termino com algumas palavras do saudoso Papa João Paulo II, proferidas na cerimónia da beatificação:
"Frederico observa a situação real dos pobres e procura um empenho cada vez mais eficaz, para os ajudar a crescer em humanidade. Compreende-se que a caridade deve levar a trabalhar pela reparação das injustiças. Caridade e Justiça caminham a par e passo, tem a coragem lúcida dum empenho social e político de primeiro plano numa época agitada da vida do seu país, pois nenhuma sociedade pode aceitar a miséria como uma fatalidade, sem que a sua honra não seja atingida".

Frederico Ozanam é para o laicado católico actual um modelo tanto mais atraente como oposto a todo o conformismo; soube tomar as mais corajosas iniciativas com doce serenidade e constante modéstia.

Consideremos este texto, como um muito pequeno apontamento sobre a Doutrina Social de Ozanam, tão rica de conteúdo, que não se pode limitar a tão breves linhas.

Fernando Reis, Refelexão in Boleim Português Sociedade de São Vicente de Paulo, Ano 101, n.º2, Fevereiro, 2009, págs. 10 e 11.

Monday, April 28, 2008

A Alegria de haver Afinidades

Por último mas muito mais importante, é o relembrar de uma data que devia ser comemorada em todo o mundo: o aniversário do nascimento de S. Vicente de Paulo a 24 de Abril. O Santo da Caridade, cuja vida e obra influenciou a do Beato Frederico Ozanam, um dos meus heróis, e a quem dediquei, num passado recente, um pequeno post.



A ler!

Thursday, April 26, 2007

Lições



«Ao fim e ao cabo o que sucedeu é que, derrubado o poder autoritário, que defendia ou tinha defendido autoritariamente valores como os da triologia "Deus, Pátria, Família", foi entendido não só que, numa primeira fase, o democrata politicamente correcto tinha que ser contra Deus, contra a Pátria e contra a Família,(...)Numa segunda fase, a esquerda baniu, com sucesso, a ideia de valores objectivos em termos de ética e de costumes (se o Estado é laico e o Papa não tem poder temporal, porque é que se incomodam tanto com o facto de os católicos lhe obedecerem...)»
in Perfácio da terceira edição da obra Portugal - Os anos do Fim de Jaime Nogueira Pinto


É um período do tempo que reúne muitas datas no seu espaço.
Dia 23 de Abril comemoram-se os anos de Frederico Ozanam.
Dia 25 de Abril faz anos a revolução dos cravos (lamento, mas é impossível chamar-lhe da liberdade. Aquele dia só serviu mesmo para promover o cravo na historia de Portugal)
Dia 28 de Abril festeja-se o nascimento de António de Oliveira Salazar.

Não deixa de ser curioso como estes três acontecimentos se podem, e se relacionam.
A 25 de Abril de 1974 dá-se a revolução dos cravos. As manifestações de liberdade e justiça sucedem-se e não passam disso mesmo: meras manifestações de intenções.
O que aconteceu no espaço temporal seguinte foi revolta, crime e roubo. Uma palavrinha para quem diz que foi uma revolução sem sangue: é mentira.
Os governos a seguir não fizeram crescer o país como prometiam e o país caiu de novo no fosso. As promessas de liberdade e democracia morreram.
O antigo lema de Salazar "Deus, Pátria e Família", como ódio dos que o quiseram apagar, foi alterado para "Anti-Deus, Anti-Pátria e Anti-Família". Com isso ruiu a nação e a sociedade portuguesa.
Hoje não há liberdade – no verdadeiro sentido da palavra - nem de ser de direita, nem de sequer de ser religioso.
Ainda há pouco, com a problemática do aborto, o país votou sim, e o primeiro-ministro regozijou e gritou: "está provado que a igreja não manda".
Assim se destroem os pilares da Nação.
Que tem isto a ver com Frederico Ozanam?
Também ele viveu em tempos duros de anti-religiosidade. Dizia que era necessário "honrar o Catolicismo em tempos de paz e defendê-lo em tempos de guerra". Ainda esta missão é necessária, e nos dias de hoje cada vez mais urgente. Cabe-nos a nós seguir-lhe o exemplo.

Monday, April 23, 2007

Antoine Frédéric Ozanam



Beato Antoine Frédéric Ozanam

Se fosse vivo faria hoje, dia 23 de Abril, 194 anos.

Foi escritor, polemista, histriador e professor francês que nasceu em Lião.
Cursou Direito e os cursos da Sorbona e do Colégio de França.
A sua vida ficou marcada por uma enorme religiosidade. Católico, era conhecido no meio estundantil pela força e inteligência com que defendia as suas teses. Nascido numa época de profunda irreligiosidade, foi um dos príncipais combatentes contra o anti-catolicismo.
Depois de um colega, no meio de uma discussão entre católicos e ateus, lhe ter afirmado que tudo o que ele dizia era bonito, mas faltava à igreja obra, decidiu fundar, em Maio de 1833, as Conferêmcias de São Vicente de Paulo.
Escreveu até ao seu amigo Ferdinand Velay que "na época borrascosa em que nos encontramosmé bonito assistir à formação, acima de todos os sistemas políticos e filosóficos, de um grupo compacto de homens decididos a usar todos os seus direitos como cidadãos, toda a sua influência, todos os seus estudos profissionais, para honrar o catolicismo em tempos de paz e defendê-lo em tempos de guerra".
A sua vida fica marcada pelo constante apoio aos pobres, e pela sua permatura morte a 8 de Setembro de 1853.
Foi um exemplo de Santidade que mais tarde foi reconhecido pela Igreja.
A 22 de Agosto, na Catedral de Notre-Dame, o Papa João Paulo II beatificou-o, reconhecendo-o assim como um exemplo para toda a humanidade.