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Friday, April 11, 2008

Conversas no Turf em torno de Os Vencidos da Vida

Uma obra em falta, dedicada aos "Vencidos" que pertenceram ao histórico Turf, realizado por descendentes seus e sócios do referido clube.



Sinopse:

Em 2007 completaram-se 120 anos do aparecimento dos “Vencidos da Vida”, grupo de onze intelectuais e políticos que marcou significativamente a vida social e política da época (1887-1894).
O Turf Club organizou neste ano um ciclo de oito conferências, relativas a sete desses amigos que fizeram parte do Turf – o conde de Ficalho, António Cândido, o marquês de Soveral, Carlos Lobo d’Ávila, o conde de Arnoso, Carlos de Lima Mayer e o conde de Sabugosa – e de um outro sócio que foi considerado Vencido “honorário” – Hugo O’Neill. O ciclo de conferências foi iniciado com uma Introdução de Filomena Mónica.
Perante a crise política e moral que se vivia na época, entendiam os onze “Vencidos da Vida”, que se reuniam regularmente no velho Hotel Bragança que, sem pretenderem ter uma afirmação ideológica precisa, era necessário uma intervenção determinada que trouxesse uma regeneração da vida política nacional desenquadrada do apodrecido rotativismo partidário.

Tuesday, June 05, 2007

O Amor Português por Ramalho Ortigão



"Uma vez apaixonado, o português é um enfermo, é quase um irresponsável. Perde a faculdade de estar alegre e de estar atento. Torna-se estúpido e sombrio. Devora-o um ciúme permanente, e para o alimentar promove ele mesmo toda a espécie de crises: mexerica, intriga, mente, calunia; e, para que verdadeiramente ele se convença de que exprimiu ao objecto amado o sentimento que este lhe inspirou, precisa de lhe ter batido."
José Duarte Ramalho Ortigão

(A quem o diz...)

O Vencidismo d' Eça



"Para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade aparente a que chegou — mas do ideal íntimo a que aspirava. Se um sujeito largou pela existência fora com o ideal supremo de ser oficial de cabeleireiro, este benemérito é um vencedor, um grande vencedor, desde que consegue ter nas mãos uma gaforina e a tesoura para a tosquiar, embora atravesse pelo Chiado cabisbaixo e de botas cambadas."
Eça de Queiroz

Os Vencidos da Vida

Num dos tópicos dos destaques da pagína da SAPO, era apresentado o site e-cultura que propõe como livro da semana Os Vencidos da Vida, da Fronteira do Caos, de 2006; e que nos apresenta este texto, de Guilherme d'Oliveira Martins, como introdução ao livro.



“Os Vencidos da Vida” (Fronteira do Caos, 2006) é uma antologia de textos de e sobre onze personalidades marcantes da vida nacional que nos últimos doze anos do século XIX se evidenciaram na tentativa de regeneração de Portugal. Normalmente, o seu exemplo é apontado como um sinal de desalento e de impossibilidade, mas se nos ativermos aos elementos mais marcantes do grupo – Eça de Queiroz, Oliveira Martins e Ramalho Ortigão – poderemos verificar que há, no essencial, uma recusa de fatalismo e de qualquer ideia de condenação inexorável e trágica do país ao atraso.

Recorde-se que o grupo, que costumava reunir-se para jantar no Hotel Braganza ou no Restaurante Tavares, a partir de 1888, era formado, além dos três referidos, por Guerra Junqueiro, António Cândido, Carlos Mayer, Carlos Lobo de Ávila, Conde de Arnoso, Conde de Ficalho, Conde de Sabugosa e pelo Marquês de Soveral. Nasceu da tomada de consciência de que o rotativismo partidário estava gasto e da esperança de que o jovem herdeiro da coroa, D. Carlos, poderia mudar o curso dos acontecimentos num sentido reformador.

Havia intelectuais, jovens políticos e palacianos, e esta convergência baseava-se na necessidade de jogar em vários tabuleiros, ora na reforma das instituições e dos partidos políticos, ora na afirmação de uma vontade mobilizadora ao mais alto nível, para que a sociedade pudesse beneficiar. António Cândido dirá: “A ideia da formação do grupo surgiu, um dia, espontânea, imprevista, entre uma colherada de doce e uma gargalhada de champanhe no restaurante Tavares, na Rua Larga de S. Roque.

Oliveira Martins lembrara o título Vencidos da Vida, que todos aplaudiram, e, pouco depois, o Conde de Sabugosa compunha uns versos que, com música da Rosa Tirana, constituíam o hino do nosso grupo”. Houve mesmo quem, na "Lisboa, desconfiada", farejasse "ali uma seita de fundibundiários, rubros como as papoilas, que irreverentemente se dispusesse a correr à pedrada as suas tradições mais gratas". Mas os convivas apenas desejavam que o país pudesse ter um sobressalto de vontade.

O "vencidismo" longe de querer existir como um qualquer derrotismo, pôde ser, para muitos dos seus protagonistas, uma réstia de vontade de quem ironicamente invocava a expressão franca “battus de la vie” para tentar promover uma redenção. E a ideia não vem só desse ano de 1888, no início dos jantares, vem da "Vida Nova" e do jornal "A Província" (assim chamado para lembrar um apelo do país mais genuíno), no Porto, poucos anos antes, e ainda, para trás, da sementeira lançada nas Conferências Democráticas de 1871. Silva Gaio, certeiramente, fará, aliás, o retrato da situação: "num meio estreito de ideias, intolerante e preconceituoso, enredado em miúdos prejuízos – Os Vencidos encarnavam a largueza de vistas, a tolerância generosa, a independência crítica, à luz da razão clarividente”. Aliás, se Antero de Quental não fez parte formalmente da confraria, o certo é que o seu espírito esteve sempre presente nesses ágapes míticos, e chegou mesmo a jantar quando partiu para os Açores na derradeira viagem.

Se virmos bem muitas das críticas que rodearam o grupo jantante, a verdade é que não são fundamentadas séria e seguramente, são, tantas vezes, gestos de despeito e ressentimento – ora porque havia muitos palacianos, esquecendo, por exemplo, que Ficalho era tudo menos um fútil; ora porque havia um jogo político dissimulado, como se fosse pecado pugnar activamente pela auto-reforma do sistema; ora porque não houvesse um programa político claro, quando em várias ocasiões esse programa, a um tempo socializante e disciplinador, era bem conhecido dos mais informados… Oliveira Martins afirma, ironicamente: "a única obrigação que o partido me encarrega de contrair para com o país, o único compromisso que toma solenemente, é o de continuar a jantar com alegria, uma vez cada semana, rindo-se o menos possível dos seus patuscos inventores". Mas o que irritava alguns críticos era que este grupo se designasse de vencidos quando era constituído por vencedores. E nesta contradição aparente, de recorte sardónico, está a chave do grupo e da sua vocação.

Não era um partido, mas o ponto de encontro de um grupo de pessoas, com provas dadas, que recusavam o derrotismo, já que se não fosse esta a atitude seria melhor partir para o exílio do esquecimento ou da acomodação. E se virmos bem, a verdade é que esse grupo de ideias tinha razão em persistir, uma vez que viria a marcar fortemente todo o século XX. Leia-se o programa da "Revista de Portugal", de Eça de Queiroz, e compreenda-se o alcance da intenção dessa plêiade: "Uma nação só vive porque pensa – cogitat ergo est". E se o público recusasse, a obra teria de "deperecer e desaparecer – deixando de novo reinar, por sobre tanta coisa que necessitava ser atendida e alumiada, a escuridão e a indiferença"… A passagem de um século para outro viria a ser fortemente dominada pela sombra forte dessa geração excepcional. E o novo século XX não pode ser entendido sem o delinear dessa influência de quem não desistiu de pôr a nação a pensar.

"A Águia" e a "Renascença Portuguesa", de Pascoaes ou de Cortesão, procuraram seguir esse desafio forte. O "Orpheu" de Pessoa e de Mário de Sá Carneiro perscrutaram os caminhos da modernidade e do futurismo a partir da mesma consideração crítica do que éramos. A "Seara Nova" de Proença, Cortesão e António Sérgio partiram também do magistério de Antero e das gerações que este iluminou e influenciou. E a "Presença" de Régio e Casais Monteiro pugnou pela "literatura viva", lembrando a lição da exigência e da abertura que vinha da escola crítica do fim do século. Joaquim de Carvalho, Eduardo Lourenço e o ensaísmo moderno têm de ser lidos igualmente a essa mesma luz. Do que se trata, no fundo, é de dizer que só seremos melhores se formos serenamente críticos.

Guilherme d'Oliveira Martins

Ler primeiras páginas aqui

Portugal d' Eça



Dizia Fialho de Almeida, criticando com azedume os Vencidos: “Dúzia e meia de ratões que, quando juntos, o que pretendem é jantar; depois de jantar, o que intentam é digerir; e digestão finda, se alguma coisa ao longe miram, tanto pode ser um ideal, como um water-closet.”

Disparava Eça de Queiroz, numa resposta à «ressoante publicidade que a imprensa erguia em torno do grupo jantante»: “O que é estranho não é o grupo dos Vencidos — o que é estranho é uma sociedade de tal modo constituída que no seu seio assume as proporções de um escândalo histórico o delírio de onze sujeitos que uma vez por semana se alimentam.”

Sunday, May 27, 2007

Os Vencidos da Vida



Na Lisboa oitocentista de fim de século, mais precisamente entre 1888 e 1893, um grupo de onze amigos desiludidos com a política dominante, e com a tentativa da sua reabilitação através do movimento surgido no Porto em 1885 com o nome de “Vida Nova”, passaram a reunir-se em jantares mais ou menos regulares, no Restaurante Tavares, no Hotel Braganza e em outros locais.

Os principais motivos para essas reuniões jantantes, que chegaram a intrigar, e mesmo a preocupar, diversos sectores da sociedade da época, eram, além da admiração e estima que tinham uns pelos outros, o patriótico desejo de colocar Portugal entre os países cimeiros da Europa de então. E para tal contavam pôr toda a sua inteligência e vontade ao serviço do príncipe D. Carlos, que em breve seria rei, com isso renascendo a esperança num país renovado e com uma política nova, onde a meritocracia fosse uma das bases. “Vencidos da Vida”, como a si próprios se chamaram, era assim um nome irónico que, se por um lado os identifica com a desilusão generalizada que grassava no país, por outro não os fazia desistir de vencerem para além do desengano. Procuravam efectivamente uma outra vida e todos, de certo modo, a encontraram, pois, ainda hoje, uns mais outros menos, são recordados por a terem, ao menos, procurado.

Vejamos a sua biografia breve por ordem alfabética do primeiro nome:

- Abílio Manuel de Guerra Junqueiro, formou-se em Direito na Universidade de Coimbra, seguindo depois a carreira administrativa, sendo deputado entre 1878 e 1891. Após a implantação da República, a cujo ideário há muito aderira, foi ministro de Portugal na Suiça. Sendo um dos mais famosos e populares poetas do seu tempo, deixou obra que ainda hoje tem leitores fieis, quer dos seus versos mais panfletários, quer dos mais líricos carregados de um humanismo panteísta.

- António Cândido Ribeiro da Costa, sacerdote, formou-se em Teologia e Direito em Coimbra, onde depois foi professor. Chamado à capital, foi ministro, conselheiro de Estado, presidente da Câmara dos Pares e procurador geral da Coroa. Foi o maior orador do seu tempo, conhecido como “Águia do Marão”, por ser natural de Amarante.

- António Maria José de Melo Silva César e Meneses, também formado em Direito por Coimbra, seguiu a carreira diplomática, chegando a ministro plenipotenciário. Dedicou-se também à Literatura, nomeadamente ao romance histórico e à descrição artística de monumentos. Foi 5º Conde de Sabugosa desde 1879, representante do título de marquês do mesmo nome, além de Conde de S. Lourenço.

- Bernardo Pinheiro Correia de Melo, filho do Visconde de Pindela (Vila Nova de Famalicão), foi oficial de Engenharia, tendo atingido o posto de general. Mas ficou mais conhecido como autor de peças de teatro de sucesso na época. Foi secretário de D. Carlos, que em 1895 o faz Conde de Arnoso. Foi também grande amigo de Eça de Queiroz.

- Carlos Lima Mayer, frequentou a Universidade de Coimbra, depois a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, acabando o seu curso de Medicina na Bélgica e em Paris. Trocou depois a clínica pela gestão de empresas financeiras em Moçambique, Angola, Açores e Algarve. Suicidou-se em 1910.

- Carlos Lobo d’Ávila formou-se em Direito em Coimbra, tendo-se depois dedicado ao jornalismo e à actividade política. Foi ministro das Obras Públicas e dos Negócios Estrangeiros. Em 1894 fundou a Câmara de Comércio e Indústria de Lisboa, morrendo no ano seguinte apenas com trinta e cinco anos.

- Francisco Manuel de Melo Breyner, filho único dos 2ºs marqueses de Ficalho, frequentou a Escola Politécnica de Lisboa, onde depois foi professor de Botânica, área em que se notabilizou com a publicação de diversos estudos sobre a flora portuguesa e ultramarina. Dirigiu o Instituto Agrícola e o Jardim Botânico de Lisboa. Foi feito Conde de Ficalho.

-Joaquim Pedro de Oliveira Martins, tendo ficado órfão de pai, interrompeu os seus estudos aos quinze anos para ir trabalhar no comércio, continuando a estudar como autodidacta. Foi depois administrador das minas de Almadén (Córdova, Espanha) e, a partir de 1874, director da construção da linha de caminho-de-ferro Porto-Póvoa de Varzim e depois director da sua exploração até 1888. No ano seguinte assumiu a direcção da Administração Geral dos Tabacos, em Lisboa, tendo entretanto recusado ser ministro da Fazenda, o que mais tarde, em 1892, vem a aceitar a pedido de D. Carlos, demitindo-se porém quatro meses depois por não ter apoio assegurado para a sua tentativa de equilibrar as contas do Estado. Em 1894 morre de tuberculose, aos quarenta e nove anos de idade. Deixou inúmeras obras publicadas no âmbito da Sociologia, da Economia e da Literatura historicista, as quais, ainda hoje, são lidas e reeditadas.

- José Duarte Ramalho Ortigão, formou-se também em Direito na Universidade de Coimbra, tendo sido depois professor de francês no Colégio da Lapa, no Porto, dirigido por seu pai, onde conhece Eça de Queiroz que aí foi seu aluno. Em 1870 está em Lisboa como oficial da secretaria da Academia das Ciências, tendo sido um dos mentores do Centenário de Camões em 1880. Foi jornalista e escritor e um dos primeiros críticos de Arte em Portugal. Para além das obras que escreveu com Eça de Queiroz (1870 - O Mistério da Estrada de Sintra; 1871 - As Farpas, que prosseguiu sozinho de 1872 a 1887), publicou notáveis livros de viagens que ainda hoje se podem ler com agrado.

-José Maria Eça de Queiroz, formou-se igualmente em Direito em Coimbra, tendo iniciado a sua vida profissional em 1867 como jornalista de O Distrito de Évora. Em 1869 parte para o Egipto e Palestina com o 5º Conde de Resende, assistindo à inauguração do Canal de Suez. Em 1870 foi administrador do concelho de Leiria, seguindo depois a carreira consular, que o levaria a Havana, onde protege os chineses contratados para trabalharem nas plantações da cana do açúcar, tendo em seguida visitado os Estados Unidos da América e o Canadá. Depois parte para Newcastle, Bristol e Paris, além de outras cidades. Além de jornalista, escreveu crónicas, contos, e sobretudo notáveis romances em que o pitoresco e os localismos rapidamente se transformam em caricaturas universais e transépocais, permanecendo os seus traços vivos até aos dias de hoje, em que continua a ser lido e apreciado em inúmeras traduções um pouco por todo o mundo.


Deste grupo dos “Vencidos da Vida” não fez parte Antero de Quental, que todos os que frequentaram a Universidade de Coimbra entre 1858 e 1864 conheciam pessoalmente e, por esse motivo, com ele se relacionaram várias das personalidades atrás referidas, tendo-se até batido em duelo com Ramalho Ortigão em 1865 por causa da “Questão Coimbrã”, reconciliando-se ambos mais tarde. Em 1873 regressa aos Açores, onde adoece de psicose maníaco-depressiva. Tendo voltado ao continente em 1881, pelo menos em 1884 convive na Granja (Vila Nova de Gaia) e no Porto, em 1884, com Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins e Eça de Queiroz. Em 1890 dirige a Liga Patriótica do Norte e, perante o seu fracasso, regressa a Ponta Delgada, onde se suicida.

Também não fizeram parte do grupo Jaime Batalha Reis, Manuel de Arriaga, Teófilo Braga, José Fontana, Salomão Saragga, Adolfo Coelho, Augusto Soromenho, Germano Meireles e Guilherme de Azevedo, os quais, além de Antero, Eça e Oliveira Martins, participaram nas “Conferências do Casino”. Ou ainda Andrade Corvo, António Enes, Alberto Sampaio, Fialho de Almeida e outros nomes incontornáveis na História da Cultura em Portugal, conhecidos como “Geração de 70”.

O grupo teve ainda um “confrade suplente” com quem os “efectivos” se encontravam no Paço de Belém: o príncipe D. Carlos, o qual era já então um esclarecido praticante de pintura e de estudos oceanográficos, que sobe ao trono, por morte do seu pai D. Luís, precisamente em 1889, o ano em que acabam os jantares do grupo todo; a partir daí muitos destes homens são chamados a pôr em prática as suas convicções e qualidades pessoais e os jantares tornam-se mais esporádicos e apenas entre alguns deles, até que acabaram de vez em 1893.

Para o grupo dos onze estar completo falta-nos apenas um confrade, de seu nome Luís Maria Pinto de Soveral, futuro Marquês de Soveral, de cuja biografia nos ocuparemos a seguir com mais detalhe.

Temos assim os onze “Vencidos da Vida”: Guerra Junqueiro, António Cândido, Conde de Sabugosa, Conde de Arnoso, Carlos Lima Mayer, Carlos Lobo d’Ávila, Conde de Ficalho, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Eça de Queiroz e o Marquês de Soveral.

Numa breve síntese, que aliás outros autores já apontaram, e considerando já alguns aspectos da biografia do “Vencido” que falta, podemos concluir que seis deles tinham o curso de Direito da Universidade de Coimbra; um foi militar de Engenharia; um outro cursou Medicina em Coimbra, Lisboa e no estrangeiro; um outro a Escola Politécnica de Lisboa, tornando-se Botânico; um outro cursou Ciências Políticas e Administrativas na Bélgica; um deles foi autodidata. Só um cursou Teologia, além de Direito, sendo padre. Quatro, pelo menos, foram ministros, quatro seguiram a carreira diplomática, se bem que um deles só após a implantação da República. Três foram feitos condes e um marquês; três, pelo menos, exerceram profissionalmente o jornalismo. Vários tiveram cargos importantes na administração pública e privada; alguns foram professores, deputados, e um só foi condutor de obras ferroviárias na época fontista. Dois escreveram literatura histórica, dois descreveram monumentos, um outro escreveu peças de teatro, um deles foi romancista, e apenas de um se diz que foi poeta. Só um estudou para vir a ser marinheiro.

Diziam-se “Vencidos da Vida”, mas apenas um se suicidou, o médico, mas não por causa da Medicina. Um morre com trinta e cinco anos, outro quase aos cinquenta de tuberculose, outro aos cinquenta e cinco de amebiase. Os restantes, faleceram mais ou menos idosos. À data do início dos seus jantares tinham, em média, trinta e oito anos de idade, tendo o mais novo vinte e quatro e o mais velho cinquenta e um. Eram, portanto, homens maduros, no auge das suas capacidades. Três (ou cinco?) nasceram em Lisboa; só três eram do Norte do país e três nasceram no Vale do Douro, um em Freixo-de-Espada-à-Cinta, outro em S. João da Pesqueira e outro no Porto.

Para morrer, quatro (ou seis?) escolheram a capital do país, três (ou cinco?) a terra natal, dois Paris.

Eis pois um possível perfil de um “Vencido da Vida”: filho de família da burguesia liberal ou acomodada ao liberalismo, formado em Direito por Coimbra ou outra escola superior, funcionário público com passagem pela política activa como deputado ou ministro, medalhado ou titulado por serviços prestados, implantado em Lisboa, dedicando-se às letras no jornalismo e no romance, conhecendo o mundo europeu e colonial, teimando no grande desejo de melhorar a sociedade e a vida económica do país, através da reforma das instituições. Não conseguiram rejuvenescer o regime monárquico e a República que se lhe seguiu foi o que se sabe. Reflectiram e escreveram muito sobre aquele seu desejo: mas não abdicaram de nada para o concretizar. Não foram seguramente “Vencidos da Vida”, mas também não quebraram o enguiço da pátria, o qual ainda hoje continua.

Mas, à sua maneira, cada um e todos eles, foram homens notáveis, com certeza enredados na sua época, mas todos com ideias de futuro a haver.

J. A. Gonçalves Guimarães in Forum Democracia Real