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Thursday, July 17, 2008

O que é bom tarda mas aparece: um inédito de Eça de Queirós

Quem diria que depois de tantos anos, ainda tens novas para contar!



O Expresso revelou-nos um texto nunca antes visto de Eça de Queirós, escrito sob o pseudónimo de João Gomes, e cujo motivo era o centenário da morte de Cristóvão Colombo.

Não partilhamos o mesmo olhar sobre a época dos descobrimentos que o autor revela neste texto, mas não deixa de ser um inédito de Eça de Queirós e um texto escrito de forma magnifica.

Aqui fica um excerto:

Ora, sempre que no século XVI se tratava de ir buscar um Mundo, quando não partia já um galeão espanhol, partia logo um galeão português. Em Cádis ou em Lisboa, havia constantemente um mareante, pronto a ir com alguns mapas incertos, e o coração posto em Deus, fundar, através dos mares, um reino novo. E se em 1492 Colombo não tivesse descoberto a América pelo norte, lá estava já Pedro Álvares Cabral que, em 1500, a descobriria pelo sul. Eram para esse continente mais oito anos de sossego e obscuridade ditosa!


(Para ler texto integral é favor clicar no excerto)

Thursday, November 29, 2007

Aqui vai a minha quinta linha da página 161

E em género de sanção compulsória, em vez de um envio três para compensar.


"(...)aquela que o salvara! Serva subtilmente leal! Fora ela que,(...)"

Esta primeira frase é retirada da página 161, da obra Contos de Eça de Queiroz.
O conto intitula-se A Aia.

o parágrafo de onde retirei a seguinte frase é o segundo da página anteriormente citada(Edições Livros do Brasil, 2002).

Aqui fica o próprio, para compreensão da própria frase.

"(...)

Foi um espanto, uma aclamação. Quem o salvara? Quem?... Lá estava junto do berço de marfim vazio, muda e hirta, aquela que o salvara! Serva sublimemente leal! Fora ela que, para conservar a vida ao seu príncipe, mandara à morte o seu filho... Então, só então, a mãe ditosa, emergindo da sua alegria extática, abraçou apaixonadamente a mãe dolorosa, e a beijou, e lhe chamou irmã do seu coração... E de entre aquela multidão que se apertava na galeria veio uma nova, ardente aclamação, com súplicas de que fosse recompensada, magnificamente, a serva admirável que salvara o rei e o reino.
(...)"


De outra obra, retirei:



"(...) -lhe o credo venal com todo o poder de sedução(...)"

Esta frase foi retirada da Obra de Joaquim Paço D'Arcos, Ansiedade, página 161, quinta linha.

Ela vem no seguimento do parágrafo iniciado na página anterior, e é neste que termina o XVIII capítulo, que passo a transcrever, acompanhado do anterior:

"(...)

Ela não tem outra mensagem a transmitir-lhe além daquela. Só a sinceridade a resgata um pouco do impudor. Debruça-se sobre ele, quase comovida: — Toy, eu não quero que tu voltes para África, fui eu em parte que te arranjei esse lugar, aceita-o, deixa-te de pieguices.
Tem quase lágrimas nos olhos. Passa-lhe na voz que implora um sopro ardente do amor inconfessado. E ele, ao vê-la nivelada à baixeza geral, integrada nesta a ponto de aceitar como bom tudo que para ele é reles, ao notar a sua insistência, ao medir o empenho apaixonado que põe em o reter, sofre duas revelações, tão estranhas, tão inconciliáveis uma e outra, que se recusa a aceitá-las e pede ao pensamento que suspenda a marcha porque ele não pode mais acompanhá-lo: Ela não foi cúmplice do Vidal, do Carlos e da quadrilha, mas legitima os seus actos, solidariza-se com o procedimento que tiveram e vale tanto como eles. Ela não vale nada, mas ama-o; não lho confessa, mas a sua voz não o disfarça, o gesto que implora não o esconde, o olhar humedecido não o oculta. Ama-o e incute-lhe o credo venal com todo o poder de sedução que irradia do seu ser de encanto e de volúpia. Ama-o e não é digna do amor alevantado que, para ela, ele em êxtase ergueu, do amor escondido com que a adorava, feito de respeito, de ternura e de sonho. Ama-o e não é digna do amor.
(...)"


Por ultímo, passo a transcrever a quinta linha da página 161 da obra de Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamázov, que inicia o 7º capítulo:


"(...)eles feito prisioneiros e coagido, sob ameaça de uma morte dolorosa(...)"

Pertence esta ao primeiro parágrafo do capítulo , de seu nome «A controvérsia»:

"(...)

A burra de Balaão, porém, de repente falou. O tema de que calhou falar era estranho: Grigóri, enquanto recebia a mercadoria na venda do comerciante Lukiánov, ouviu dele a história de um soldado russo que, algures muito longe daqui, na fronteira com os asiáticos, foi por eles feito prisioneiro e coagido, sob a ameaça de uma morte dolorosa e imediata, a renunciar ao cristianismo e a converter-se ao islão; não renunciou à sua fé e aceitou o martírio — deixou que o esfolassem vivo e morreu glorificando Cristo. Foi essa a façanha que o jornal do dia publicara. Foi disso também que Grigóri falou ao almoço. Fiódor Pavlovitch, no fim da refeição, à sobremesa, gostava sempre de conversar, nem que fosse com Grigóri. Ora, desta vez estava numa disposição de ânimo relaxada, todo repimpado, a bebericar conhaque e a ouvir a notícia. Observou que era necessário canonizar imediatamente aquele soldado, fazer dele um santo, e transferir a sua pele esfolada para qualquer mosteiro. «Então viriam chusmas de povo e montões de dinheiro.» Grigóri franziu a cara, ao ver que Fiódor Pávlovitch não se tinha comovido absolutamente nada e ainda por cima, como era seu costume, começava a blasfemar. De repente, Smerdiakov, que estava junto à porta, soltou uma gargalhada. A este propósito, diga-se que já antes deixavam que Smerdiakov ficasse perto da mesa no fim ao almoço. Ora, desde que Ivan Fiódorovitch veio para a nossa cidade, o lacaio comparecia quase sempre ao almoço.
(...)"

Aqui ficam então alguns dos meus gostos.
Devo dizer que gosto e muito de qualquer um dos livros citados. Mas devo também recordar que foram todos escolhidos aleatoriamente, de entre um molho vasto de romances e outros livros que se encontram atravessados na minha estante.
Um agradecimento ao Mário por esta oportunidade, e se da parte do Nonas vier um comentário às minhas escolhas, tanto bom como mau, seria uma honra recebê-lo.

Friday, September 21, 2007

De Regresso (a meio gás) com Eça



"O país perdeu a inteligência e a consciência moral.
Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada.
Os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direção a conveniência.
Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida.
Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.
Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.
Alguns agiotas felizes exploram.
A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.
O povo está na miséria.
Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.
O Estado é considerado na ação fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
A certeza desse rebaixamento invadiu todas as consciências.
Diz-se por toda a parte, o país está perdido!
Algum opositor do atual governo ?
Não!"

Eça de Queirós, 1871

Tuesday, June 05, 2007

O Vencidismo d' Eça



"Para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade aparente a que chegou — mas do ideal íntimo a que aspirava. Se um sujeito largou pela existência fora com o ideal supremo de ser oficial de cabeleireiro, este benemérito é um vencedor, um grande vencedor, desde que consegue ter nas mãos uma gaforina e a tesoura para a tosquiar, embora atravesse pelo Chiado cabisbaixo e de botas cambadas."
Eça de Queiroz

Portugal d' Eça



Dizia Fialho de Almeida, criticando com azedume os Vencidos: “Dúzia e meia de ratões que, quando juntos, o que pretendem é jantar; depois de jantar, o que intentam é digerir; e digestão finda, se alguma coisa ao longe miram, tanto pode ser um ideal, como um water-closet.”

Disparava Eça de Queiroz, numa resposta à «ressoante publicidade que a imprensa erguia em torno do grupo jantante»: “O que é estranho não é o grupo dos Vencidos — o que é estranho é uma sociedade de tal modo constituída que no seu seio assume as proporções de um escândalo histórico o delírio de onze sujeitos que uma vez por semana se alimentam.”